A poesia como experiência do sensível: Florbela Espanca e a inclusão pela linguagem
Durante muito tempo, a poesia foi cercada pela ideia de que apenas leitores especializados poderiam compreendê-la. Essa percepção, ainda bastante difundida, acaba por criar barreiras e afastar muitos leitores da experiência poética. Entretanto, a poesia nem sempre exige um conhecimento prévio ou uma interpretação técnica. Em muitos casos, ela se apresenta, antes de tudo, como uma experiência do sensível.
É justamente nesse ponto que a obra de Florbela Espanca se revela extraordinária. Sua poesia não se fecha em códigos inacessíveis, mas se abre ao leitor por meio das emoções, das imagens e das experiências humanas mais profundas. Antes de ser compreendida racionalmente, ela é sentida.
Inserida no contexto da modernidade, Florbela compartilha das inquietações de autores como Baudelaire, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Contudo, sua singularidade reside na forma como aproxima essas tensões da experiência cotidiana, permitindo que o leitor reconheça em seus versos sentimentos como amor, saudade, desejo, perda e esperança.
Essa abertura torna sua poesia particularmente inclusiva. O poema não exige que o leitor domine teorias ou possua uma formação específica; basta que esteja disposto a se deixar tocar pela linguagem. A experiência estética deixa, assim, de ser um privilégio e se transforma em um espaço de participação.
Um dos exemplos mais conhecidos é o soneto “Amar!”, em que Florbela celebra a intensidade da vida e dos afetos:
"Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar..."
Mais do que uma definição do amor, o poema oferece uma experiência de intensidade e liberdade. O leitor não precisa decifrar todos os seus significados para ser alcançado por sua força. A alternância entre lembrar e esquecer, prender e desprender, amar e perder-se aproxima a poesia da própria condição humana.
Outro soneto emblemático é “Ser Poeta”, no qual Florbela apresenta a criação poética como uma experiência de excesso e de entrega:
"É ter fome, é ter sede de Infinito!
É condensar o mundo num só grito!"
Longe de definir rigidamente o que é a poesia, o poema revela sua dimensão de abertura e de partilha. O poeta é aquele que transforma a experiência em canto e a oferece aos outros. Dessa forma, a poesia se converte em espaço de encontro.
Pensar a inclusão por meio da literatura não significa simplificar os textos, mas reconhecer que a experiência estética pode ser vivida por diferentes sujeitos, independentemente de idade, formação ou condição social. A memória, os afetos e as emoções não obedecem a uma lógica linear, e a poesia de Florbela acolhe justamente essas oscilações, sem exigir respostas definitivas.
Minha própria trajetória nasceu desse encontro. Ainda estudante, ouvi pela primeira vez o soneto “Amar!” em uma aula de Literatura Portuguesa. Aqueles versos, escritos no quadro por um professor, produziram um impacto imediato. Antes mesmo de compreender seus mecanismos formais, fui profundamente tocada por sua musicalidade e pela intensidade de sua linguagem.
A partir desse encontro, nasceu o desejo de continuar lendo Florbela Espanca e de compreender mais profundamente a sua obra. Vieram então os estudos em teoria e crítica literária, o mestrado dedicado ao corpo em sua poesia, o doutorado sobre sua escrita e, atualmente, as pesquisas em torno do acervo inédito de cartas e postais da autora.
Ao olhar para esse percurso, torna-se impossível separar a investigação acadêmica da experiência inicial proporcionada pela poesia. Florbela Espanca não foi apenas objeto de estudo; sua obra abriu caminhos, orientou escolhas e transformou uma curiosidade em projeto de vida.
Talvez seja essa uma das maiores forças da poesia: a capacidade de ampliar horizontes e criar espaços de pertencimento. Porque, em determinados momentos, um poema não apenas fala do mundo. Ele modifica a forma como habitamos esse mundo e amplia quem pode participar dessa experiência.
E é justamente aí que reside sua dimensão mais profunda de inclusão: na possibilidade de tocar diferentes vidas e de fazer com que cada leitor, à sua maneira, encontre nos versos um lugar possível de existência.
Iracema Goor é pós-doutoranda do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), onde desenvolve pesquisa sobre o acervo inédito de Florbela Espanca, com apoio da FAPESP. Doutora em Literatura e Crítica Literária, dedica-se aos estudos florbelianos e à preservação da memória literária, contribuindo para a difusão da obra da poetisa portuguesa no Brasil e em Portugal.