CAMÕES, LUÍZ VAZ
Ler o diálogo entre a escrita de Florbela Espanca e a lírica de Luís Vaz de Camões é enveredar pelo caminho em que se alternam amor e dor, binômio incontornável na poesia de ambos os poetas. Inscrito na tradição clássica, o verso florbeliano assume uma erótica escamoteada na poesia camoniana de cariz platônico, raras vezes matizada pela instância corporal. Segundo Cláudia Pazos Alonso, Florbela procura obstinadamente uma legitimidade simbólica à criatividade feminina, por isso ela seria uma espécie de irmã imaginária de Camões (2012). O soneto camoniano "transforma-se o amador na cousa amada" termina com a reivindicação da forma humana, física, dado excelentemente usado por Florbela. A fórmula camoniana "mas esta linda e pura semideia// (...) está no pensamento como ideia: (e) o vivo e puro amor de que sou feito,/ como a matéria simples busca a forma." Florbela dá vida ao desejo ardente em versos como "Frêmito do meu corpo a procurar-te,/ febre das minhas mãos na tua pele" (Charneca em Flor). Em "Volúpia", o eu lírico oferece o "corpo prometido à morte" e os "beijos de volúpia e de maldade".
Se Camões ousou, nas glosas e quadras, fazer uma referência mais direta ao erótico, mantendo a produção sonetística no domínio da idealização do intangível, a poetisa alentejana utiliza essa mesma forma para dar voz ao desejo exacerbado, à fome da carne. Os séculos que separam a Florbela Espanca do cantor que imortalizou em versos as conquistas portuguesas não impediram uma aproximação estreita entre esses dois poetas do amor, da saudade e do desejo. Para este registro, destaque-se o tributo prestado pela poetisa a Camões, ao epigrafar o bloco dos 10 sonetos de Charneca em Flor (1931), com o verso "He um querer mais que bem querer", introdutor do conhecido soneto "Amor é fogo que arde sem se ver" (conhecido pelo primeiro verso, suprindo assim a falta de um título). Os sonetos ali enfeixados revelam a exaltação amorosa, na sua maioria, a busca, muitas vezes inglória, do amor verdadeiro, os sonhos malogrados, bem ao modo da lírica camoniana. Segundo Cláudia Pazos Alonso e Fabio Mario da Silva (2015), desse conjunto de sonetos, o l e o V dialogam diretamente, visto que "A semelhança do "Soneto l", o amado é aqui encarado como fonte de salvação, detentor do poder de arrancar o sujeito lírico "dos pântanos da vida". A metáfora da água estagnada contrapõe-se, no remate do soneto, à das "cristalinas águas" que jorram da montanha, decorrentes da proteção masculina.
Do livro Trocando Olhares (1915-1917), o soneto "Vozes do mar" traz uma referência explícita ao autor de Os Lusíadas (1580). Interrogando o mar sobre receios, anseios de amargura ou cantos d'epopeia, o soneto caminha para a evocação do poeta nos versos finais: "Talvez a voz do Portugal antigo/ Chamando por Camões numa saudade!" (17-6-1916). As referências não param aí. No soneto introdutório do desaparecido Parnaso de Luís de Camões, o último verso indica o amor como condição para o entendimento dos versos do livro: "segundo amor tiverdes/ tereis o entendimento dos meus versos". Florbela convoca os "irmãos na Dor, os olhos rasos de água/ Chorai comigo a minha imensa mágoa/ lendo o meu livro só de mágoas cheio!..." Para além dessas referências, o desengano amoroso, a saudade, o amor sem medida, a inconstância amorosa, são tópicos de uma lírica cuja fonte, somada a outras águas, é a poesia camoniana.
Zuleide Duarte. Luís Vaz de Camões. In Dicionário de Florbela Espanca, Jonas Leite e Fabio Mario da Silva e direção científica Maria Lúcia Dal Farra. Lisboa: Edições Esgotadas, abril-2024, p. 112-113
Bibliografia
ALONSO, Cláudia Pazos, "Como eu sou vossa Irmã, ó meu Irmãos!...": Florbela, irmã simbólica de Camões, in ESPANCA, Florbela, Livro de "Soror Saudade", Obras Completas de Florbela Espanca, Lisboa, Editorial Estampa, 2012, pp. 17-34.
ALONSO, Cláudia Pazos; SILVA, Fabio Mario da, Notas, in ESPANCA, Florbela, Charneca em Flor, Obras Completas de Florbela Espanca, Lisboa, Editorial Estampa, 2013, pp. 149-207.
CAMÕES, Luiz de, Parnaso de Luiz de Camões: Edição das poesias lyricas consagrada à comemoração do Centenário de Camões, edição Ferreira de Brito, Porto, Imprensa Internacional, 1880.
ESPANCA, Florbela, Trocando Olhares, organização, notas e estudos de Maria Lúcia Dal Farra, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.
Zuleide Duarte