Florbela Espanca: a memória guardada por Aurélia Borges
Aurélia da Silva Borges de Moura Gomes nasceu em 1915 e, ao longo de quase um século de vida, fez da lembrança de Florbela Espanca uma verdadeira missão. Ainda muito jovem, foi aluna da poetisa em Évora e daquele encontro nasceu uma amizade profunda e uma devoção que atravessaria décadas. Mais do que discípula, Aurélia tornou-se uma das primeiras e mais apaixonadas defensoras da obra florbeliana.
Enquanto muitos procuravam diminuir ou silenciar a voz da escritora alentejana, Aurélia erguia-se em sua defesa. Publicou livros, escreveu inúmeros artigos, fundou a Escola Florbeliana e participou ativamente dos movimentos que buscavam dar a Florbela o reconhecimento que lhe fora negado em vida. Via na antiga professora não apenas uma grande poeta, mas uma das maiores figuras da literatura portuguesa.
Nas recordações da discípula, Florbela surge como uma mulher de rara elegância e personalidade singular. Gostava dos tons lilases e roxos, apreciava os tecidos finos, os bordados e os detalhes artísticos das roupas. Tinha uma forma própria de vestir e uma ousadia que, para a época, despertava admiração e estranheza. Mas, segundo Aurélia, por trás do refinamento havia sobretudo uma mulher moderna, livre e profundamente fiel à sua natureza.
Ao longo dos anos, Aurélia acompanhou com tristeza as polêmicas e interpretações que cercaram a vida da amiga. Manteve intensa correspondência com Maria Lúcia Dal Farra (pesquisadora da obra florbeliana), e jamais deixou de lutar contra as deturpações que, em sua visão, ameaçavam a memória de Florbela. Sua defesa era movida não pelo ressentimento, mas pela gratidão e pelo afeto de quem conhecera de perto a mulher por trás do mito.
Já idosa, contemplando a extraordinária consagração da escritora que admirara desde a juventude, Aurélia reconhecia com serenidade a missão que lhe fora confiada. Sentia-se depositária de uma herança preciosa e esperava apenas que, depois dela, outros continuassem a preservar a lembrança daquela a quem chamava simplesmente de Bela.
Talvez por isso a história de Aurélia Borges se confunda com a própria história da permanência de Florbela Espanca. Como uma fiel sentinela da memória, atravessou o século guardando cartas, recordações e afetos, para que a voz da amiga não fosse vencida pelo esquecimento. E, graças a essa devoção silenciosa, muito do que hoje sabemos sobre Florbela continua vivo, como uma chama transmitida de geração em geração.
Iracema Goor é pós-doutoranda do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/USP), onde desenvolve pesquisa sobre o acervo inédito de Florbela Espanca, com apoio da FAPESP. Doutora em Literatura e Crítica Literária, dedica-se aos estudos florbelianos e à preservação da memória literária, contribuindo para a difusão da obra da poetisa portuguesa no Brasil e em Portugal.