Como eu sou vossa Irmã, ó Meus Irmãos!’: Florbela, irmã simbólica de Camões
Num influente ensaio intitulado ‘Tradition and the Individual Talent’, publicado em 1919, no mesmo ano em que Livro de Mágoas veio à estampa, o poeta modernista T.S. Eliot afirma: ‘No poet, no artist of any art, has complete meaning alone. His significance, his appreciation, is the appreciation of his relation to the dead poets and artists’. Seguindo a norma do período em questão, Eliot não se apercebe sequer que os modelos literários consagrados podem criar complicações adicionais para as escritoras. Porém, para qualquer mulher que então escrevesse, as complexidades inerentes ao processo de como usufruir de alguma legitimidade numa tradição maioritariamente masculina teriam sido uma questão incontornável. Por exemplo, Virgina Woolf articula explicitamente as vicissitudes que as mulheres artistas enfrentavam, no seu A Room of One’s Own, de 1929, através da imagem espectral de uma imaginária Judith Shakespeare, irmã de William. A escritora inglesa demonstra vividamente o que seria ser uma parente pobre, ‘trapped in a woman’s body’, um génio feminino conduzido ao suicídio pelo desprezo a que fora votada pela sociedade.
No contexto português, Florbela Espanca, cujos três volumes de poesia abrangem precisamente o período no qual estes dois ensaios foram escritos, dá corpo na sua obra a algumas das tribulações que uma equivalente portuguesa da irmã simbólica de Shakespeare teria necessariamente de enfrentar, lutando para ser reconhecida como imaginária irmã de Camões. Como Battersby elucida, ‘Romanticism turned the artist into a demi-god: the genius. Woman, by contrast, became simply ‘‘Other’’. […] being a creator and a truly feminine female were deemed to be in conflict’ (1989, p.6). Ou seja, o génio era predominantemente construído como masculino, pelo que a dupla identidade de mulher e escritora se constituía, a priori, como um paradoxo difícil de ultrapassar.
Cláudia Pazos Alonso. ’Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!...’: Florbela irmã simbólica de Camões”. In Florbela Espanca. Livro de “Soror Saudade”. Organização, fixação crítica dos textos e notas de Claúdia Pazos Alonso e Fabio Mario da Silva; estudos introdutórios de Cláudia Pazos Alonso, Derivaldo dos Santos, António Cândido Franco. Lisboa: Editorial Estampa, 2012, p.17-34.