Florbela Espanca e o território sensível do “eu”
Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir – todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
No diário que escreve no último ano de sua vida, Florbela Espanca deixa escapar, quase sem defesa, essa confissão oblíqua e luminosa. Não se trata de um prólogo nem de um programa estético, mas de um gesto de exposição íntima, lançado ao acaso aparente de quem escreve sem destinatário. É ali que Florbela se dá por inteiro e, ao mesmo tempo, se esquiva: escreve para ninguém, escreve para si, escreve nesse intervalo instável em que a palavra não promete sentido fixo nem abrigo seguro.
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